sexta-feira, 7 de novembro de 2008

De uma festa do outro lado do rio a uma briga gerada por ciúme

A lua ia alta e sorridente. Era um sorriso largo e luminoso. Agradava-me de forma idiota aquele sorriso que fazia o rio crepitar de contentamento. Atravessávamos em uma pequena e frágil embarcação o rio Guamá e direção a Ilha das Onças. Certamente Isaías e Daniel estavam mais sóbrios que eu. Mas por que diabos eu não conseguia manerar nos tragos? Provavelmente eu tivesse um sério problema como minha velha afirmava.
- Álvares – disse-me Isaías irritado. – Pega leve na bebida. A gente ainda nem chegou na festa, porra. Tu bebes como se o mundo fosse acabar.
- Um dia vai, meu bem – respondi ironicamente. – Estou só antecipando as comemorações para esse fantástico momento que nos aguarda. Vamos todos explodir! Levar o caralho! Será o fim dessa merda toda.
- Tenho que comemorar também – disse Daniel apanhando a garrafa de vinho vagabundo de minhas mãos. Um dia eu sonhava em degustar um do Porto para variar.
E Daniel deu um lindo gole. Isaías ficou puto da vida. Ele não gostava muito de beber, mas era vidrado em mulheres e farra. Era um grande otário que acreditava que o ser humano era aquilo que aparentava (vestia). Ele se achava um sujeito demasiadamente bonito e estribado. Ele era até simpático pra dizer a verdade. Um moreno claro de quase um metro e oitenta, corpo definido e roupas de marca. Mas era um morto-a-fome tal como Daniel e eu. A diferença era que ele trabalhava agora e se achava um figurão. Sua grana era somente para roupas de marca e entradas em boates classe média que eu me cagava nas calças só de me imaginar lá dentro. Um Isaías era insuportável, imaginem um bando deles. Daniel não gostava da cara de Isaías. Eu relevava-o por ele ser meu amigo de infância. E de alguma forma eu estava tentando entendê-lo e ele a mim. Mudamos pra diabo desde a infância. Não nos entenderíamos como os amigos leitores irão perceber na leitura de um romance (é claro se eu conseguir publicar e os amigos comprarem e, o mais importante, eu não ter morrido de cirroso até lá) que finalizei no início deste mês.
Por hora, concentremo-nos nesta narrativa.
- Minha mãe ficou em casa, Isaías – continuou Daniel. – Nem vem querer dá uma de velha pra cá.
- Depois vocês enchem a cara – respondeu Isaías bastante nervoso e irritado. – E quem é que passa a maior vergonha sou eu. Que nem naquela vigem pro Marajó. Eu não quero nem saber! Que vocês se fodam dessa vez.
- Foder é um complemento, meu caro – disse-lhe eu só para tirar um sarro. – Isaías se aborrecia quando não conseguia nos convencer de alguma coisa. Ele queria enfiar Igreja e Jesus em minha cabeça na marra certa vez. É verdade. Isaías é um cara muito religioso. Pensa que será arrebatado aos Céus antes de conhecer a morte. Se houver foda, fodemos. Caso contrário, conformo-me em observar e beber.
Daniel sorriu. Isaías me fuzilou com os olhos e disse;
- Tu e o Daniel são dois ateus! – nesse momento ele urrava. – Jesus deu a vida por nós, porra! – e num tom mais reconciliatório, embora persuasivo. - Vocês estão querendo ir pro inferno é? O Senhor está voltando. O que vocês vão dizer a Ele, heim?
Usar as palavras Jesus, vida e porra numa mesma frase me parecia por demais sacrílego e imoral.
Daniel deu uma gargalhada. Eu também. O vinho me alegrava o espírito de forma bastante exagerada.
- Talvez eu diga a mesma coisa que tu, Isaías – respondeu Daniel controlando riso. – Que eu só uma filho-da-puta que passei boa parte da minha vida sendo um sem vergonha por completo. Por se tu realmente achas que merece ir pro Céu escoltado por anjos e tudo mais. Eu mereço então o trono de Deus.
Daniel sabia como pegar pesado quando o assunto era religião. Principalmente o Cristianismo. E olha que eu o conheci dentro de um templo evangélico.
Então o barco encostou-se ao trapiche da ilha.
Belém vista do outro lado do rio naquele horário da noite era uma imagem encantadora e onírica. Parecia uma grande fogueira de luz. Uma grande fogueira a incendiar corpos insones e carregados de sentimentos diversos.
Entramos num extenso salão em madeira após percorremos uma estreita e sem fim ponte de madeira sobre um terreno alagadiço. O salão era cercado de matas e, raríssimas casas a nos fazer vizinhança. Um gerador de energia a óleo roncava aos fundos do salão. Duas caixas de som que mais chiavam do que outra coisa, batalhavam intenções de músicas. O assoalho estremecia todo enquanto os freqüentadores dançavam freneticamente.
- Que diabos de festa é esta que tu nos trouxestes, seu veado? – perguntei a Isaías. Era muito estranho ele nos trazer a um lugar daqueles. Isaías era tipo que só gostava de estar em lugares freqüentados por boyzinho e patricinhas dos bairros nobres de Belém.
- Eh, mano! – disse-me Isaías muito senhor de si. – Por acaso eu já te levei para alguma barca furada?
- Cara, nem me faça lembrar – respondi de forma clara e precisa. – Se eu me estrepar por aqui, meu riquinho, eu te juro, que te enfio na boca do primeiro jacaré, mapinguari ou jibóia que encontrar.
Isaías sorriu e Daniel também. Sentamos e alguém nos pediu um cigarro.
- Eu não fumo – respondi rapidamente, pois estava fazendo sinal para nos trazerem uma cerveja e três copos.
- Se você (Quando um sujeito aqui por estas paragens, queridas senhoritas, usa a segunda pessoa do singular para se dirigir a uma dama, pode crer, o cara está a fim de bolinar com você) quiser, meu amor – adiantou Isaías todo galanteador. – Eu arrumo todos os cigarros do universo para você, bebezinha.
Isaías era um cretino mesmo. Eu não podia deixar de admirar aquela sua facilidade em dizer coisas idiotas, entretanto, tiro e queda para conquistar certas garotas desmioladas. O mundo estava cheio delas.
- Senta aqui com a gente – ofereceu Isaías.
- Claro – respondeu ela sentando-se. Era tudo o que a vadia que ouvir. Pegar um otário para pagar as coisas pra ela.
Depois apareceram as amigas da garota. Até que elas não eram de todo mal. Seriam mais agradáveis se fossem mudas. Sério. Seriam mesmo. Elas falavam bastante e Isaías e Daniel já haviam se apossado de seus pares. Eu digo isso porque vi como as mãos deles estavam bobas. Sobrou-me uma garota de olhos negros e expressões ingênuas e um bocado infantis. Eu não gostava de garotas mais novas que eu. Não quando eu tinha vinte e um anos e a garota de treze para quatorze. Isso era pedofilia. As garotas que estavam com meus dois parceiros eram crescidas e tinham feições de garotas de dezoito anos pra cima.
Daniel e Isaías foram para meio do salão dançar com suas molecas. Eu fiquei bebendo o restante do vinho enquanto aguardava outra cerveja.
- Ei, garoto – perguntou-me minha acompanhante. – Tu estás bem?
- Sim, eu estou. Obrigado – respondi olhando Daniel e Isaías a fazer tudo com suas acompanhantes do que dançar. Depois eles sumiram. Eles foram tirar o atraso.
- Tu és um tanto calado – observou a pequenina Amanda. Não sei por que nessas festas de interior deixam que garotas daquela idade entrem. Por isso, são tão comuns os casos de garotinhas emprenharem aos doze anos naquelas localidades esquecidas por nosso poder público.
- Vou buscar uma cerveja no bar – disse erguendo-me da mesa. – Tu queres um refrigerante, Amanda?
- Tu estás me chamando de criança – irritou-se ela. - Eu já tenho idade suficiente pra beber.
- É mesmo? – duvidei.
- É claro! Eu tenho quinze anos. A idade de minhas amigas que saíram com os teus amigos.
- Pois eu ainda acho que a senhorita tem doze anos – respondi.
- Senhorita é os cambal! Vá a merda, seu otário – disse-me ela se retirando.
Depois Isaías e Daniel regressaram com suas pequenas. Eles estavam muito contentes e riam a todo instante feito dois idiotas. Perguntaram-me a respeito de Amanda. Eu disse que ela tinha ido embora indagorinha. Isaías perguntou se eu fui grosseiro com ela. Eu respondi que não.
E antes de enchermos os nossos copos de cerveja, uma garota com gesto rudes e expressões ameaçadoras cresceu de modo hostil atrás de Isaías e sua pequena com uma garrafa de cerveja vazia empunha nas mãos. Era que a pequena de Isaías tinha uma namorada bastante ciumenta.
- CUIDADO, ISAÍAS – gritei para ele. – ATRÁS DE TI.
Isaías virou-se rapidamente levando o braço direito instintivamente a altura do rosto e, nesse exato instante a garrafa explodiu e cacos de vidros espalharam-se por toda direção ferindo o braço e o pescoço de Isaías fazendo-o sangrar abundantemente. Isaías ficou pálido e estático. E garota voou em cima dele. Ele deu um senhor soco na face redonda de sua oponente fazendo-a cair de costas ao chão. Depois montou com os joelhos e cima de seus seios gordos e flácidos e a socou até ser retirado com uma cadeirada em cima do ombro por outros freqüentadores daquele exótico salão. Depois ajuntamos o que restou de Isaías e o levamos carregados até o trapiche a fim de voltarmos para Belém.
- E era o Álvares e eu ia se foder. Não é, Isaías? – lembrou o rancoroso Daniel.
- Porra, cara – respondeu o resto de Isaías deitado no fundo da embarcação. – Eu tô todo fodido. Me coloquem num táxi quando a gente chegar, valeu?
Enquanto isso, as luzes de Belém projetavam-se sobre o rio Guamá.

2 comentários:

Raphael Costa disse...

Pior que é assim mesmo, esses amigos da gente que se acham o fodão acabam se fodendo na sua própria liga...hehehe.
Gostei muito desse último, o papo da ficante do Isaías ter
uma namorada e tal, bem igual com o que acontece em festa.
Seria bom ouvir um pouco mais sobre como eles se conheceram.
Po, que bom que pelo menos algúem gostou daquele conto que eu fiz.
:) Um abraço ae pro senhor.

Raphael Costa disse...

Po, legal que fizeste a história do passado deles. Realmente a publicação é a pior parte. Eu mudo umas sete vezes a mesma linha na hora em que decido publicar :D
Mas pode contar comigo que eu curto essa tua história e vou sempre ta lendo.
Abraço

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