domingo, 21 de dezembro de 2008

Em busca da Fé

EU NÃO PODIA facilitar as coisas para traficante de merda, por isso, eu precisava manerar nos tragos. Dormir com porta e janela abertas era demasiado irresponsável e fatal. Vitória me caguetou para nossa mãe, e eu novamente prometi não me embriagar mais. “Tu tens que procurar uma religião, Álvares. Tu tens que acreditar em alguma coisa pra segurar a barra. Vou me virar pra conseguir uma consulta psicológica pra ti.” Disse-me mamãe numa de minhas raras visitas a ela. Era que eu odiava a fuça de Raimundo, um bêbado que vivia com minha velha e a sugava. Eu nunca consegui entender o porque dela ainda viver com ele depois de tudo o que aconteceu. Ela devia amá-lo demais. Enfim, eu prometi que freqüentaria um templo evangélico. Ela comentou que era a melhor coisa que eu faria na vida. Eu, durante a adolescência, costumava freqüentar essa ramificação do Cristianismo, entretanto, saí tão logo ler toda a bíblia, livro que eu achei por demais contraditório, intolerante, elitista e preconceituoso. Lewis Carrol com sua “Alice no País das Maravilhas” e Saint Exupéry com seu “Pequeno Príncipe” me falaram bem mais naquela época.

Arrumei-me, tomei o restante do vinho da noite anterior e saí.

A igreja estava lotada. Sentei-me na última fileira e fiquei observando o desenrolar do culto. Aquilo já estava me enfadando. Por duas vezes cochilei. O pastor era um sujeito baixo e gordo. Seu sermão dava mais voltas do que pneu de coletivo. Era um saco ter que ouvi-lo narrar passagens bíblicas batidas e sem originalidade. Eu tenho certeza que eu daria um sermão melhor do que o safado, até porque eu não foderia a paciência dos irmãos com uma porra de um discurso que se resumiria em apenas uma coisa: extorqui dinheiro.

Ele nos contou do sacrifico que Abraão. Disse-nos que Abraão daria (assassinaria) o que de mais precioso possuía, seu filho Isaque. Tudo isso seria feito para louvar o Criador. Portanto, Deus não queria somente cantos e danças, Ele até gostava de louvores e danças em Sua homenagem, mas Ele só poderia nos abençoar se O louvássemos com nossas carteiras. Um “sacrifício de fé.” Seu eu fosse Deus, eu o fulminaria ali mesmo.

- Dei o que você tem para Deus! – gritava o pastor. – Cem, oitenta, cinqüenta, quarenta, vinte, dez reais. Puxe seu talão de cheque! Hoje o Senhor quer ser louvado de outra maneira! Hoje ele quer uma prova de fé de seus filhos!

E vários auxiliares do pastor distribuíam envelopes azuis pela platéia. Eu me recusei a pegar, aliás, quase quarenta por cento da igreja se recusou a pegar o tal envelope. Eu adoraria ter uma caneta e um pedaço de papel naquele momento. Eu escreveria um montão de desaforos para aquele pastor otário e colocaria dentro daquele maldito envelope.

- Deus me falou que abençoará muitas vidas – continuava o cretino enquanto muitos irmãos davam Glórias a Deus e Aleluias. - Eu vejo portas de empregos sendo abertas, filhos sendo libertados das drogas, maridos livres da bebida, eu vejo Deus operando. Oh, glória Deus! Peguem os envelopes, ponham suas ofertas dentro e tragam aqui na frente.

Eu fiquei esperando o assalto terminar para depois voltar para casa, mas o ministro de Deus estava muito ofendido com os demais irmãos que se recusaram a pegar o envelope.

- Acho que alguns irmãos – disse-nos ele. – Ou não entenderam a palavra de Deus ou não acreditam mais nela. Os irmãos que se recusaram a adorar a Deus, com certeza devem estar sem dinheiro. – E aí o mal-caráter virou para os irmãos que tinham caído em sua conversa fiada e disse maliciosamente: – Os irmãos que vieram à frente, emprestem dinheiro para os irmãos que estão sentados.

Porra, aquilo foi o fim da picada! Não deu para segurar o ódio que começava a mover-se com a suavidade do magma um pouco antes da erupção. Era incrível como algumas pessoas podiam se rebaixar tanto. Os religiosos quase sempre são os mais sujos e imorais. Não era a toa que Daniel tinha tanta raiva de crentes. Porra, se eu fosse uma porcaria de um homem-bomba, certamente explodiria aquele antro de perdição. Nietzsche estava correto ao afirmar que igreja boa era igreja demolida. Mas que diabos de mundo é este em que eu vim parar? Por que diabos eu não podia ser o único habitante de um pequeno planeta tal como o pequeno príncipe? Só que ao invés de uma rosa melindrosa, eu teria uma garrafa encantada que nunca esvaziava por mais que bebêssemos dela várias vezes seguidas.

Então eu explodir. Ergui-me de meu lugar e caminhei, muito visivelmente irritado, rumo à saída. O pastor me fitou com espanto, e eu o fitei com um ódio mortal.

- O senhor é o maior filho da puta que eu já vi! – gritei apontando e sua direção antes de cruzar a porta em direção a rua escura.

Ouvi ainda ele gritar lá de dentro: - Sangue de Jesus te repreenda, Satanás!

Eu precisava de algo para beber.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Casa Nova

Escrever um livro não é fácil, mas prometer deixar de embocar copos é bem pior. Durante o tempo ausente, estive redigindo e revisando de forma compulsiva. Ainda houve uma mudança de setor, mudei-me para um setor barra-pesada: Cabanagem. O nome já sugere conflito, guerrilha, bala e o caralho a quatro! Daniel e minha irmã Vitória apareceram para uma visita. Eu estava bêbado e tentava escrever uma merda de poema que acabou por não sair. Vitória ficou muito irritada, pois eu havia prometido para nossa velha que nunca mais viraria um maldito copo de qualquer tipo de bebida alcoólica, eu nunca fui um bom cumpridor de promessas, e ainda por cima tenho uma memória péssima. Na verdade, eu não lembro de quase nada daquela noite; só lembro de Vitória fritando ovos e Daniel falando-me de sua antiga paixão que havia o chutado fazia cinco anos e uma oportunidade de emprego em alguma loja do Comércio. Ele também ia alto na bebida. Ouvíamos músicas espanholas. Eu adorava músicas espanholas como vocês devem saber, e Daniel havia descoberto um grupo argentino que me agradava muito as letras e o ritmo: Iguana Tango. Vitória me serviu os ovos, eu coloquei bem farinha e pimenta de cheiro. O prato devia está ótimo, embora eu não conseguisse lembrar do gosto. Vitória e Daniel se foram após eu pedi inúmeras vezes para que eles ficassem e dormissem ali comigo. Diabos! Eu estava me sentindo solitário e depressivo. Sempre acontecia isso quando eu misturava mais de um tipo de bebida.
Despenquei na cama de roupa e tudo, olhei para o teto e para as paredes brancas da nova casa alugada, estranhei o ambiente e adormeci em seguida.

***

Acordei por volta das 03h45min da madrugada com uma sede infernal. Sequei duas jarras de água, senti vontade de vomitar. Alarme falso. Ainda havia quase uma garrafa de vinho ordinária na geladeira. Destampei e tomei um gole. E aí eu vomitei em seguida, deitei-me na rede da sala enquanto ouvia alguém negociar drogas com um motoqueiro na frente de minha janela fechada. Caralho aonde eu vim me meter!, pensei cá comigo.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

De uma festa do outro lado do rio a uma briga gerada por ciúme

A lua ia alta e sorridente. Era um sorriso largo e luminoso. Agradava-me de forma idiota aquele sorriso que fazia o rio crepitar de contentamento. Atravessávamos em uma pequena e frágil embarcação o rio Guamá e direção a Ilha das Onças. Certamente Isaías e Daniel estavam mais sóbrios que eu. Mas por que diabos eu não conseguia manerar nos tragos? Provavelmente eu tivesse um sério problema como minha velha afirmava.
- Álvares – disse-me Isaías irritado. – Pega leve na bebida. A gente ainda nem chegou na festa, porra. Tu bebes como se o mundo fosse acabar.
- Um dia vai, meu bem – respondi ironicamente. – Estou só antecipando as comemorações para esse fantástico momento que nos aguarda. Vamos todos explodir! Levar o caralho! Será o fim dessa merda toda.
- Tenho que comemorar também – disse Daniel apanhando a garrafa de vinho vagabundo de minhas mãos. Um dia eu sonhava em degustar um do Porto para variar.
E Daniel deu um lindo gole. Isaías ficou puto da vida. Ele não gostava muito de beber, mas era vidrado em mulheres e farra. Era um grande otário que acreditava que o ser humano era aquilo que aparentava (vestia). Ele se achava um sujeito demasiadamente bonito e estribado. Ele era até simpático pra dizer a verdade. Um moreno claro de quase um metro e oitenta, corpo definido e roupas de marca. Mas era um morto-a-fome tal como Daniel e eu. A diferença era que ele trabalhava agora e se achava um figurão. Sua grana era somente para roupas de marca e entradas em boates classe média que eu me cagava nas calças só de me imaginar lá dentro. Um Isaías era insuportável, imaginem um bando deles. Daniel não gostava da cara de Isaías. Eu relevava-o por ele ser meu amigo de infância. E de alguma forma eu estava tentando entendê-lo e ele a mim. Mudamos pra diabo desde a infância. Não nos entenderíamos como os amigos leitores irão perceber na leitura de um romance (é claro se eu conseguir publicar e os amigos comprarem e, o mais importante, eu não ter morrido de cirroso até lá) que finalizei no início deste mês.
Por hora, concentremo-nos nesta narrativa.
- Minha mãe ficou em casa, Isaías – continuou Daniel. – Nem vem querer dá uma de velha pra cá.
- Depois vocês enchem a cara – respondeu Isaías bastante nervoso e irritado. – E quem é que passa a maior vergonha sou eu. Que nem naquela vigem pro Marajó. Eu não quero nem saber! Que vocês se fodam dessa vez.
- Foder é um complemento, meu caro – disse-lhe eu só para tirar um sarro. – Isaías se aborrecia quando não conseguia nos convencer de alguma coisa. Ele queria enfiar Igreja e Jesus em minha cabeça na marra certa vez. É verdade. Isaías é um cara muito religioso. Pensa que será arrebatado aos Céus antes de conhecer a morte. Se houver foda, fodemos. Caso contrário, conformo-me em observar e beber.
Daniel sorriu. Isaías me fuzilou com os olhos e disse;
- Tu e o Daniel são dois ateus! – nesse momento ele urrava. – Jesus deu a vida por nós, porra! – e num tom mais reconciliatório, embora persuasivo. - Vocês estão querendo ir pro inferno é? O Senhor está voltando. O que vocês vão dizer a Ele, heim?
Usar as palavras Jesus, vida e porra numa mesma frase me parecia por demais sacrílego e imoral.
Daniel deu uma gargalhada. Eu também. O vinho me alegrava o espírito de forma bastante exagerada.
- Talvez eu diga a mesma coisa que tu, Isaías – respondeu Daniel controlando riso. – Que eu só uma filho-da-puta que passei boa parte da minha vida sendo um sem vergonha por completo. Por se tu realmente achas que merece ir pro Céu escoltado por anjos e tudo mais. Eu mereço então o trono de Deus.
Daniel sabia como pegar pesado quando o assunto era religião. Principalmente o Cristianismo. E olha que eu o conheci dentro de um templo evangélico.
Então o barco encostou-se ao trapiche da ilha.
Belém vista do outro lado do rio naquele horário da noite era uma imagem encantadora e onírica. Parecia uma grande fogueira de luz. Uma grande fogueira a incendiar corpos insones e carregados de sentimentos diversos.
Entramos num extenso salão em madeira após percorremos uma estreita e sem fim ponte de madeira sobre um terreno alagadiço. O salão era cercado de matas e, raríssimas casas a nos fazer vizinhança. Um gerador de energia a óleo roncava aos fundos do salão. Duas caixas de som que mais chiavam do que outra coisa, batalhavam intenções de músicas. O assoalho estremecia todo enquanto os freqüentadores dançavam freneticamente.
- Que diabos de festa é esta que tu nos trouxestes, seu veado? – perguntei a Isaías. Era muito estranho ele nos trazer a um lugar daqueles. Isaías era tipo que só gostava de estar em lugares freqüentados por boyzinho e patricinhas dos bairros nobres de Belém.
- Eh, mano! – disse-me Isaías muito senhor de si. – Por acaso eu já te levei para alguma barca furada?
- Cara, nem me faça lembrar – respondi de forma clara e precisa. – Se eu me estrepar por aqui, meu riquinho, eu te juro, que te enfio na boca do primeiro jacaré, mapinguari ou jibóia que encontrar.
Isaías sorriu e Daniel também. Sentamos e alguém nos pediu um cigarro.
- Eu não fumo – respondi rapidamente, pois estava fazendo sinal para nos trazerem uma cerveja e três copos.
- Se você (Quando um sujeito aqui por estas paragens, queridas senhoritas, usa a segunda pessoa do singular para se dirigir a uma dama, pode crer, o cara está a fim de bolinar com você) quiser, meu amor – adiantou Isaías todo galanteador. – Eu arrumo todos os cigarros do universo para você, bebezinha.
Isaías era um cretino mesmo. Eu não podia deixar de admirar aquela sua facilidade em dizer coisas idiotas, entretanto, tiro e queda para conquistar certas garotas desmioladas. O mundo estava cheio delas.
- Senta aqui com a gente – ofereceu Isaías.
- Claro – respondeu ela sentando-se. Era tudo o que a vadia que ouvir. Pegar um otário para pagar as coisas pra ela.
Depois apareceram as amigas da garota. Até que elas não eram de todo mal. Seriam mais agradáveis se fossem mudas. Sério. Seriam mesmo. Elas falavam bastante e Isaías e Daniel já haviam se apossado de seus pares. Eu digo isso porque vi como as mãos deles estavam bobas. Sobrou-me uma garota de olhos negros e expressões ingênuas e um bocado infantis. Eu não gostava de garotas mais novas que eu. Não quando eu tinha vinte e um anos e a garota de treze para quatorze. Isso era pedofilia. As garotas que estavam com meus dois parceiros eram crescidas e tinham feições de garotas de dezoito anos pra cima.
Daniel e Isaías foram para meio do salão dançar com suas molecas. Eu fiquei bebendo o restante do vinho enquanto aguardava outra cerveja.
- Ei, garoto – perguntou-me minha acompanhante. – Tu estás bem?
- Sim, eu estou. Obrigado – respondi olhando Daniel e Isaías a fazer tudo com suas acompanhantes do que dançar. Depois eles sumiram. Eles foram tirar o atraso.
- Tu és um tanto calado – observou a pequenina Amanda. Não sei por que nessas festas de interior deixam que garotas daquela idade entrem. Por isso, são tão comuns os casos de garotinhas emprenharem aos doze anos naquelas localidades esquecidas por nosso poder público.
- Vou buscar uma cerveja no bar – disse erguendo-me da mesa. – Tu queres um refrigerante, Amanda?
- Tu estás me chamando de criança – irritou-se ela. - Eu já tenho idade suficiente pra beber.
- É mesmo? – duvidei.
- É claro! Eu tenho quinze anos. A idade de minhas amigas que saíram com os teus amigos.
- Pois eu ainda acho que a senhorita tem doze anos – respondi.
- Senhorita é os cambal! Vá a merda, seu otário – disse-me ela se retirando.
Depois Isaías e Daniel regressaram com suas pequenas. Eles estavam muito contentes e riam a todo instante feito dois idiotas. Perguntaram-me a respeito de Amanda. Eu disse que ela tinha ido embora indagorinha. Isaías perguntou se eu fui grosseiro com ela. Eu respondi que não.
E antes de enchermos os nossos copos de cerveja, uma garota com gesto rudes e expressões ameaçadoras cresceu de modo hostil atrás de Isaías e sua pequena com uma garrafa de cerveja vazia empunha nas mãos. Era que a pequena de Isaías tinha uma namorada bastante ciumenta.
- CUIDADO, ISAÍAS – gritei para ele. – ATRÁS DE TI.
Isaías virou-se rapidamente levando o braço direito instintivamente a altura do rosto e, nesse exato instante a garrafa explodiu e cacos de vidros espalharam-se por toda direção ferindo o braço e o pescoço de Isaías fazendo-o sangrar abundantemente. Isaías ficou pálido e estático. E garota voou em cima dele. Ele deu um senhor soco na face redonda de sua oponente fazendo-a cair de costas ao chão. Depois montou com os joelhos e cima de seus seios gordos e flácidos e a socou até ser retirado com uma cadeirada em cima do ombro por outros freqüentadores daquele exótico salão. Depois ajuntamos o que restou de Isaías e o levamos carregados até o trapiche a fim de voltarmos para Belém.
- E era o Álvares e eu ia se foder. Não é, Isaías? – lembrou o rancoroso Daniel.
- Porra, cara – respondeu o resto de Isaías deitado no fundo da embarcação. – Eu tô todo fodido. Me coloquem num táxi quando a gente chegar, valeu?
Enquanto isso, as luzes de Belém projetavam-se sobre o rio Guamá.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Um conto de ressaca



Sexta-feira à noite. Nada planejado. Casualmente Roberto manifesta um súbito interesse de ir tomar uma no bar da esquina. A noite estava clara e o néon faminto devorava todas as estrelas enquanto os automóveis se ajuntavam no sinal. É Sexta-feira, meu velho, e os bares, como de costume, estão lotados. Paulo procura uma mesa a que é encontrada a custo. Abaixa-se a gelada. O papo já vai longe. Daniel surgira do nada e ficara para tomar um copo apenas, não poderia se demorar muito. Roberto (com toda sua eloqüência de político em vésperas de eleição) decorre sobre variados assuntos, enquanto Paulo, Álvares e o recém-chegado Daniel lhes prestam a devida atenção.

Conversa vem e vai e a noite avança sem ser notada. E quando se percebe os sentidos estão alterados; a voz se eleva além do habitual, tudo dormente. Letárgicos os carros passam e os transeuntes adquirem dimensões fantasmagóricas. Cadê as penas para irem embora? E eles riam e riam alto, falavam de tudo e de nada; de nada e de ninguém. Gargalhavam na vã tentativa de ludibriar as dores sepultadas vivas, dentro de suas almas amordaçadas. Pediram a “saideira”, a última e tomaram. Enquanto isso, a “pé-na-bunda” já estava a caminho, gelada e sedutora.

Os quatros se despedem. Cada qual para o seu canto. Os últimos ônibus passam e Roberto se despede de Álvares enquanto esse último resolve caminhar até sua casa. “Talvez o porre passe com uma boa caminhada”. Pensou o rapaz embriagado.

E à medida que os quarteirões iam sendo vencidos, por seus passos lentos e imprecisos, mais o efeito se intensificava.

O cinema de um lado e ele do outro da avenida. Largou-se na calçada do can, desolado enquanto o vento morno lhe trazia fortes lembranças de um antigo amor que, no entanto, o feria rasgando-lhe por dentro. E ele gritou, gritou bem alto:

- REGIANE!

A basílica ao seu lado direito e a altiva samaumeira em sua retaguarda. Ficou ali jogado por horas imprecisas a olhar, fixamente, o frontal Cine Nazaré. A recordar, a sofrer um sofrimento desmedido, exagerado eu diria. Um sofrer que lhe era necessário. Um sofrer que ele aprendera a amar. Como a sua imensa e bem cuidada solidão.

Levantou-se a custo e em seu desequilíbrio entende que o retorno ao lar será impossível naquela noite. Então a Praça Santuário surge como opção de hotel. Toda cercada de altas grades e trancada seus portões de acesso, na certa daria para “desbundar” sem medo de amanhecer sem as roupas do corpo. Como entrar então, meu velho? Álvares avalia o portão lateral da praça: fechado. Não se desestimula e vai até o portão frontal e para sua sorte o mesmo estava apenas encostado. Entrou e encostou o portão novamente. Olhou para a Santa e a Santa lhe olhou de volta. Como seria agradável dormir ali na ilharga de Nossa Senhora de Nazaré. Caminha até o local onde está a Santa. Mais um portão. Fechado. A Santa ali lhe olhando com um olhar reprovador. Ele se desculpa e sai de cabeça baixa. As gramas estão orvalhadas então se senta no banco rígido e frio e deita e dorme.

A basílica se enrubescia ao tocar dos longos dedos do sol que lhe acariciava o corpo mármore e neoclássico fazendo-a sorrir e balançar, frenética, seus sinos de bronze. Os relógios das torres marcavam seis em ponto e aos periquitos forasteiro faziam a maior algazarra na samaumeira que disputava em graça com a basílica. Um grupo de velhos observava a incomum presença daquele jovem deitado sob a supervisão da Santa, da basílica e da samaumeira.

Com passos firmes e decididos caminha em direção a basílica. Sobe suas escadarias, passa por entre as colunas de mármore reluzente e entra na suntuosa casa de Deus feita pelas mãos de homens. Senta e observa a missa. Rezar não sabia, nem católico era. E antes que seus pensamentos pudessem se ordenar uma pequena procissão sai atrás da Santa que lhe observara durante o sono ao relento. Agora ela está sobre uma berlinda repleta de flores diversas e é carregada por quatro homens. Álvares lhe olha e ela responde a esse olhar (pelo menos é o que rapaz percebe). E acompanha a procissão ainda sob o leve e atordoante efeito do álcool. A Virgem sai para uma volta no quarteirão e os devotos rezam e louvam. Em coro uníssono pediam para que suas almas fossem livradas do fogo eterno do inferno, amém. No entanto, Álvares rezava ao contrario, pois o céu lhe parecia careta demais e o inferno, sempre bem agitado com suas orgias mil, lhe vinha como uma opção bem agradável diria até mesmo divina. Então, sua oração particular fora interrompida por um senhor de cabelos brancos e olhos cansados que pedia para ajudá-lo a carregar a Santa. E lá se vai o jovem bêbado do lado esquerdo da berlinda, sentindo o peso da padroeira dos paraenses no ombro e subindo a passos incertos a 14 de Março em direção à Avenida Nazaré. “Lançai-me no fogo do inferno pela eternidade, amém”. Era a sua oração mental em paradoxo com a oração verbal dos devotos absorvidos pela idéia de um céu tão próximo de seus olhos.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Sentidos aflorados

A emoção. O coração a bater forte, tão forte... Falta o ar, falta o chão, falta tudo. O conhaque a correr livre pelo organismo. Estou quebrado. Vislumbro lugar nenhum. Estou em busca do fim. Um fim. Não uma começo ou uma renovação, mas um final. Henry Miller estava com toda a razão. Quero explodir!

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

HOJE



Era uma bela colegial sentada ao meu lado no ônibus. Ela era morena de cabelos encaracolados. Aquela saia azul frisada a deixar seus joelhos e metade das coxas expostas tornara inevitável uma sincera ereção. E o ônibus seguia seu itinerário a sombra de mangueiras amistosas que formavam verdadeiros verdes túneis nas principais vias da cidade. Tempo fechado, embora bastante abafado. Vivíamos como se dentro de uma enorme sauna. Dia anterior eu bebi feito um condenado e descolei uma boa trepada. Cachaça pura na xícara que me desarranjou as tripas e uma foda que me deixou relax. “Primeira coisa a ser feita ao se chegar em casa é passar direto para a privada”. Pensei. Cagar assim meio de ressaca fazia a mente galga degraus superiormente interessante. E quando você se dava conta de si, já não era mais.
Então, vovó Conceição apareceu à porta do banheiro.
- Álvares – ralhou ela – quando tu vais parar com essa tua cachaçada?Depois ela se retirou e eu fritei duas calabresas e comi com bastante pimenta. Guardei um texto recém-concluído que poderia me valer uns novecentos reais daqui a duas semanas e segui para o meu segundo tempo de trabalho.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Estações das Docas e Ver-o-Peso: uma metáfora da desigualdade social



A tarde estava linda. O sol derramava-se todo na baía de Guajará enquanto garças sobrevoam aquele espelho violentado de embarcações irregulares. Ao lado, as Estações das Docas, complexo de três armazéns de docas desativados e adaptados em ponto turístico. O governo da época torrou uma grana doida ali. O povo não gostou, pois se sentiam coagidos a entrarem num espaço onde uma bola de sorvete custava cerca de oito reais.
- O que dirá uma simples e inocente cerveja? – comentou Raimundo.
Até o aspecto dos freqüentadores daquele lugar era diferenciado, pessoas bem alimentadas e vestidas; pessoas altas e de gestos insolentes. Garçons que falavam várias línguas, gestos estudados, aspecto aristocráticos, servidão no mais alto nível e camisas alvas e engomadas. Eram belas camisas. Eu poderia consegui algumas camisas como aquela e todo o dinheiro do mundo e entrar e tomar umas cervejas ali, mas mesmo assim, na minha cara estaria uma placa escrita a palavra: “POBRE”.
Por isso, eu gostava mesmo era de beber no Ver-o-Peso. Lá o pessoal era outro. Putas transitando por entre os box’s onde funcionavam os bares, mendigos fedorentos, engraxates, vagabundos profissionais, vendedores de relógios e DVD’s e CD’s falsos, vendedores de queijinho no espeto a um real e a baía bem mais amistosa e cordial do que a baía da Estação das Docas, que ficava praticamente ao lado. Sim, praticamente, pois, uma praça ficava entre elas, a Praça do Pescador.
Certa vez Daniel comentou a respeito daqueles dois mundos distintos e relacionou com a realidade dual de nosso planeta e principalmente de nossa sociedade. Os pobres ou “picas finas”, como diria minha avó, de um lado e sem muita atenção; os ricos ou “picas grossas”, do outro, com privilégios e lambidas no saco direto.
Daniel pensava em pegar em armas se fosse possível e, assim como Cazuza, ele também desejava “dinamitar a burguesia”. Eu apenas queria beber e, de certa forma, desejava mesmo era que todos se fodessem ou que deixassem eu me foder sozinho.
Enquanto isso, a tarde já não era mais. E uma puta de rosto bonito, segurou-me pela cintura e esfregou-se nas minhas costas antes de sumir na direção da Castilho França.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Uma cerveja e a certeza de algo




Então Daniel cruzou o salão, sentou-se em uma mesa junto à janela, que fazia frente com a rua e pediu uma cerveja. Ele também se achava grande coisa, no entanto, se sua mãe aparecesse ali ele se cagaria nas calças. Ele não podia vacilar senão os seus velhos lhe arrancariam o couro e os ossos. Morar com os pais quando se é um homem feito é insuportável e, muitas vezes, humilhante. Ainda mais para um aspirante a alcoólatra.
E ele bebia sua cerveja imaginando, temeroso, se seus pais desconfiariam de seu estado sóbrio. Talvez seus pais lhe cheirassem a boca como tantas vezes já fizeram. Ele tinha 21 anos e desejava morar sozinho. Mas para isso se era necessário arrumar um emprego e Daniel odiava trabalho e convívio humano.
A cerveja despediu-se. Daniel enfiou as mãos nos bolsos. Estava liso. Nem umas moedinhas sequer para um trago de cachaça vagabunda.
Definitivamente ele precisava arrumar um emprego. E isso o atormentava.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Um papo e algo mais entre Álvares e Teresa

Teresa: Álvares, eu acho melhor você manerar nos tragos.

Álvares: Foda-se. Eu quero beber.

Teresa: Pois beba. Mas vê se não vá fazer merda.

Álvares: Não irei, minha gostosa.

Teresa: Respeita a minha cara, moleque!

Álvares: Falando assim parece até que tu és uma anciã, Teresa.

Teresa: Te vi pequeno, Álvares.

Álvares: Agora estou grande, meu bem.

Teresa: Pra mim tu continuas sendo o mesmo pirralho. Só que agora mais metido e
bêbado.

Álvares: Pra mim tu continuas sendo a mesma vizinha que me inspirava às maiores
bronhas e que eu sempre quis foder.

Teresa: Toma vergonha nessa tua cara, moleque! Cresça e apareça.

Álvares: Sei que tu desejas este meu corpo jovem. Vem cá. Há quanto tempo tu dá umazinha, heim? Sei que tu queres. Ninguém precisa saber. Estamos nós dois aqui, sozinhos. Sente-se aqui na minha perna. Isso... Assim mesmo. Não é tão ruim assim, né?

Teresa: Tu não prestas mesmo, Álvares.

Álvares: Nossa! Que pernas, Teresa! Tu andas malhando na certa.

Teresa: Vá te foder, Álvares.

Álvares: Vá com calma, Teresa. Assim você me arranca o zíper e as bolas.

Teresa: Me dá logo essa pimbinha pra cá, porra.

Álvares: Ela também cresceu.

Teresa: Nossa! Estou vendo. A última vez que eu a vi ela tinha a metade do meu dedo mindinho.

Álvares: Ai, Teresa... gostoso... Engole tudo. Que garanta, heim? Ui... vai, danada. AAAAHHHHHHH!!!

Teresa: Já gozastes?

Álvares: Foi só o primeiro tempo, meu bem.

Teresa: Veja só. Melastes todo o meu rosto.

Álvares: Lave-se no banheiro.

Teresa: É o que eu vou fazer.

Álvares: Na volta traga mais uma garrafa de vinho. Esta aqui já era. Por favor.

Teresa: Certo!

domingo, 13 de julho de 2008

No bar

Era uma jovem atraente atrás de um balcão. Ela era loura e se movimentava lentamente. Seus seios grandes pararecia querer saltar da blusa rosa. Ela deveria ganhar um trocado com aqueles seios. Mas ela atendia no balcão de um bar. Se eu tivesse um par de seios e uma aparência daquela eu seria uma prostituta de luxo e não uma garçonete.
- Mas alguma coisa, senhor? - disse-me ela em resposta ao meu insistente olhar.
- Sim. Eu gostaria de te ver nua numa cama.
- Na sua cama?
- É.
- Vá sonhando cachaceiro. Nem se você fosse a última pica do mundo.
Houve risos.
Eu pedi outra cerveja e saí.

domingo, 11 de maio de 2008

No dia das mães

A tarde estava bacana demais para ser desperdiçada em pensamentos abstratos. Eu desejava ardentemente não desejar nada. Andar pelas ruas ensolaradas. Nas calçadas: velhos observando crianças. Havia som em algumas casas. Era domingo. E algumas pessoas tendem a beber menos nesse dia; outras, nem tanto. Ainda mais quando suas mamães são chegadas na “manguaça”. Eu não estaria com minha mãe nesse dia. Eu não dava a mínima para essa data imposta pelo comércio. Eu não desejava ser manipulado por toda essa volumosa bosta publicitária despejadas em nossas mentes tentando nos convencer que se não compramos o melhor presente, sempre o mais caro, para nossas mães somos filhos ingratos. Era um jogo que eu não desejava fazer parte.
Então, eu caminhei em direção a um Cyber. Pena não haver computadores disponíveis. Fui à casa de Isaías para uma visita. Fazia tempo que não nos falávamos. Ele tinha meia garrafa de vinho.

- Tu tens alguma coisa que tenha álcool? – perguntei em meio a conversa.
- Tem meia garrafa de vinha que a mamãe usa como remédio respondeu ele.
- Manda.

O vinho estava ótimo. Bem gelado.

Então a tarde deu lugar a noite e decidimos nos conectar a Internet. Eu me lembrei que deveria postar alguma coisa nesse dia das mães. E aqui está. Estou meio lá meio cá. Isaías está no pc ao lado observando mulheres. Gostaria de esvaziar mais uma garrafa.
Mamãe estaria bem?

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Desempregados

Estávamos quase no meio do ano e eu ainda não tinha conseguido emprego. Daniel estava na mesma situação. Marcamos de levar um currículo no comércio.
- Cara – disse-me Daniel levemente chateado – agente vai atrás de trabalho amanhã... Outro dia agente bebe. Quero dar um tempo. O pessoal lá em casa ainda tá enchendo desde daquela vez.
A última vez que Daniel e eu bebemos, o seu estômago pediu que jogassem a toalha. O cara enfiou a cabeça na minha privada e vomitou até o que não tinha nas tripas. O conhaque tinha acabado com Daniel. Ainda tínhamos cachaça e eu bebia, enquanto Daniel continuava com a fuça na privada. Então, fechei a casa e deitei-me adormecendo. Daniel em algum momento deixou a minha privada em paz, saiu de casa, fechou a porta e jogou a chave pelo vão da janela.
Então, ele caminhou pela rua, solitário, tentando acertar os passos, no intuito de chegar a sua casa. Já passava das três da madrugada e, como nosso bairro desponta na lista dos mais perigosos da cidade, um bandidinho de merda o parou antes de chegar a seu destino. Mandou que ele tirasse a camisa e o boné. Daniel realizou esses procedimentos muito custosamente visto que era extremamente complicado realizar essa tarefa no estado alcoólico em que se encontrava. Depois desse chato incidente, bastante comum em nosso bairro, o meu parceiro avistou a sua casa. Mas os seus velhos estavam na varanda o esperando. Provavelmente levou uns bons sopapos do pai, mas não quis me contar. Disse apenas que seus pais cagaram em sua cabeça. Ele estava com um receio enorme de virar alguns copinhos inocentes. Eu estava bem arranjado de parceiro.
- Deixa de viadagem – disse a ele. – Vamos tomar só uma.
- Álvares – respondeu ele – tu nunca tomas só uma.
Sei que acabei rebocando o cara comigo para o bar.
O bar ficava numa extremamente perigosa, mas havia bastante bebida ali. E isso bastava. Entramos. Havia algumas pessoas bebendo e o garçom era um velho baixinho de cabelos e barba branca. Pedi uma cerveja. Enchi os copos e esvaziei o meu rapidamente. O velho assistia desenho animado. Eu gostava daquele desenho animado. Era um desenho bastante engraçado.
A cerveja acabou logo e fiz sinal para o velho garçom nos trazer outra. Daniel reclamou:
- Agente vai atrás de emprego amanhã, Álvares.
- Foda-se – respondi.
- A mamãe enche o saco pra eu arrumar um emprego. Pra ajudar nas despesas que tu sabes que alta. Temos que par aluguel, luz... A tua vida é boa. Tu não tens com que se preocupar e nem uma mãe vinte quatro horas te enchendo. Tu podes beber de cabeça fria. Depois daqui eu tenho de voltar pra casa e os velhos vão está lá pra me encher a paciência. Tenho que deixar a poeira baixar, cara.
- Foda-se você e a sua família – disse.
- Repete isso, cara – provocou Daniel.
- Foda-se…

Senti os punhos de Daniel enterrar no meu estômago e quase simultaneamente em minha face. Tombei por cima de umas mesas que se encontravam empilhadas a minha direita. Agarrei-me numa e larguei em cima de Daniel. A desordem estava armada e todos brigavam. O velho do balcão tomou uma atitude e tirou não sem de onde um treisoitão reluzente e gritou mais alto que a desordem:
- VAMOS PARAR COM ESSA PALHAÇADA SENÃO, EU JURO POR DEUS, VOU DESCARREGAR TODA ESTA PORRA EM CIMA DE VOCÊS.
Silêncio geral.
- Agora terminem suas cervejas e rasguem daqui – disse de forma mais branda, o velho garçom.
Esvaziamos nossos copos e nos retirarmos. E no caminho de nossas casas, falamos:
- Velho fodido – disse eu meio distante. – Se acha o bacana só porque tem um trinta-e-oito.
- Isso aí é verdade – respondeu Daniel tão absorto quanto eu. – Passo oito horas na tua casa pra gente levar o currículo, valeu?
- Certo – respondi.
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